Orixás em Berlim

Pontualmente para o dia da consciência negra, aportam os orixás em Berlim: o coral Brasil Ensemble vai cantar nesta sexta-feira os Afro-Sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes, num espetáculo que unirá voz, instrumento e artes visuais. O coral, em grande parte formado por alemães, ensaiou durante um ano inteiro as oito canções deste clássico que foi um marco na história da MPB há 50 anos. Mas não entrará sozinho no palco: foi especialmente convidado para este espetáculo o pianista, filho do compositor, Philippe Baden Powell. Os Afro-Sambas são uma espécie de “Porgy and Bess“ brasileiro, onde no lugar do amor entre duas pessoas de origem afro-americana está o amor pela religião africana“, diz o músico.

Philippe vai acompanhar o coral com a banda de Eudinho Soares e também fará solos com temas inéditos que pertencem ao ciclo de canções. “As partituras, eu encontrei alguns anos atrás numa gaveta do meu pai. Elas não têm letra, mas a mesma temática dos Afro-Sambas, baseada nos cultos africanos“. Philippe Baden Powell realizou o Projeto “Afro-Sambas Jazz“ com o material que encontrou, fazendo uma leitura jazzística das composições de seu pai. “Fizemos uma gravação tirando o foco do violão, como se fosse para uma Big Band, com ênfase no conjunto“. O disco lançado no Brasil permanece inédito na Europa.

Esta obra de Baden e Vinícius já nasceu predisposta a se juntar a outras vertentes musicais. Sua gravação original, realizada em janeiro de 1966, teve arranjos do maestro Guerra Peixe. “Ele era compositor de música erudita. Os Afro-Sambas representam para o Brasil a primeira obra que uniu todas as vertentes. Guerra Peixe gostou tanto que fez uma versão sinfônica e para coro“, diz com entusiasmo a regente do Brasil Ensemble, Andrea Huguenin Botelho.

Baden Powell e Vinícius de Moraes compuseram este ciclo de canções baseados nos cultos de candomblé e de capoeira. Botelho usou em parte os arranjos cedidos pelo maestro Eduardo Fernandes, que havia realizado um projeto semelhante com os Afro-Sambas em 2007 com o coral da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). A regente conta que a intenção do Brasil Ensemble era fazer o espetáculo no formato de um oratório brasileiro. Porém, o aspecto religioso da obra não será o ponto central da apresentação em Berlim, mas o mito, realçado pela interculturalidade.

Concerto em Berlim homenageia Alberto Nepomuceno, o inventor da canção erudita em português

Um concerto na Embaixada do Brasil em Berlim vai relembrar nesta semana a memória de um dos músicos eruditos mais importantes do Brasil no exterior: Alberto Nepomuceno. O pianista, organista, professor, regente e compositor cearense ocupa uma relevante posição na historiografia da música no Brasil. Ainda que sua reputação seja quase completamente ignorada pela população em geral, Nepomuceno foi respeitado no mundo erudito europeu muito antes de a música brasileira ser plenamente associada às manifestações populares, ao samba, ao carnaval e a hits de verão. Ainda que essa idéia possivelmente tivesse lhe agradado.

A lista é enorme dos músicos brasileiros que estão no exterior hoje em dia em busca de aperfeiçoamento e que alcançam prestígio internacional. Não foi diferente para os talentos nacionais a partir da segunda metade do século 19, ainda que sob condições muito mais precárias do que hoje. Para citar alguns dos grandes nomes nacionais da música erudita que fizeram este caminho: Carlos Gomes foi muito celebrado pelo público europeu em sua época e teve em vida várias obras executadas em importantes teatros, inclusive sua ópera mais conhecida, “O Guarani“ , que estreou em 1870 no Teatro alla Scala de Milão. Heitor Villa-Lobos, duas gerações depois de Gomes, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Nova Iorque pelo conjunto de sua obra divulgada fora do país.

Alberto Nepomuceno realizou a grande tarefa de dar uma feição brasileira à música erudita produzida no Brasil. Ele viu em seu pupilo Villa-Lobos o continuador de sua obra e o apoiou. É que a dominância estrangeira, principalmente da língua italiana, era tida como a regra absoluta na cena clássica e na cabeça de seus representantes. Nepomuceno era um defensor fervoroso da cultura brasileira, por ser a dele, no que se tratava de música. Ele entrou para a história musical, entre outros, por ter sido o primeiro a escrever canções eruditas em português, na época em que o canto lírico era dominado pelo italiano. Ele dizia: -“Não tem pátria um povo que não canta em sua língua“.

Primeiro coral infantil bilíngüe estréia com repertório brasileiro-alemão

Berlim, Alemanha – Um projeto musical inédito pretende por meio da música aproximar crianças bilíngües do universo cultural ligado à língua portuguesa. O primeiro coral de crianças que falam português e alemão faz seu concerto de estréia nesta sexta-feira na sede da Embaixada Brasileira.

O coral com o sugestivo nome de Curumins in Berlin, nasceu de uma idéia ousada da maestro e pianista Andréa Huguenin Botelho, que quer oferecer a crianças bilíngües na Alemanha a possibilidade de ter um contato mais profundo com a língua portuguesa por meio da música. Mas o que o diferencia de outros trabalhos infantis do gênero é a sua intenção pedagógica bilingual.

“O perfil do Curumins não se define só pelo que vai ser apresentado. O coral tem uma fundamentação de formação de escola com técnica vocal para se criar um coral de concerto. E ele é bilíngüe, as crianças cantam em português e em alemão“, diz a maestro.

O coral começou a ensaiar há dois meses e reúne quase 40 crianças de 6 a 10 anos que têm como língua herdada o português. Mas não se limita ao Brasil e sim tem membros também de Portugal, Moçambique, Angola e Cabo Verde. “O Curumins é voltado para o repertório da língua portuguesa, e não só do Brasil. No entanto, este é o grande foco, pois sou brasileira“.

A maestro e pianista do Rio de Janeiro crê na música como a âncora do fortalecimento da identidade cultural, que para crianças bilíngües é um tema complexo. Se o soar das estrofes ufanistas de um Ary Barroso pode despertar num migrante brasileiro a saudade atávica de sua própria cultura, esses mesmos versos se tingem de um significado completamente novo se cantados por crianças bilíngues, que nascem ou crescem no exterior, filhas de brasileiros.

“Esse Brasil de ioiô e de iaiá, que canta e é feliz’, por exemplo, pode ser para essas meninas e esses meninos um aspecto distante e nebuloso da vida de um dos pais, vivenciado num cotidiano que geralmente não tem nada de brasileiro.
“Crianças filhas de migrantes não desenvolvem sua identidade cultural da forma como se espera.

Em grande parte, elas são consideradas‚ “migrantes no país onde moram e‚ estrangeiras” para a terra natal de seus pais. A tendência delas é abrir mão de uma das nacionalidades“, diz Andréa Botelho. “Através de um trabalho musical como este, pode-se transferir para essas criancas a positividade do multiculturalismo“.